1. A Tradição Oral e o Nome da Casa
Segundo a memória local, a casa conhecida como «Casa do Surjão» em Parada de Monteiros terá recebido este nome em virtude de um antepassado da família que exercia funções de índole médica ou cirúrgica — possivelmente cirurgião, dentista ou simplesmente alguém com conhecimentos práticos de saúde que ajudava a comunidade. Acrescenta-se que este antepassado poderia ter adquirido esses conhecimentos durante o serviço militar.
Esta secção avalia a plausibilidade histórica desta tradição oral à luz da documentação e dos costumes da época.
2. «Surjão»: Etimologia e Dialectologia
O primeiro elemento a estabelecer é linguístico: a palavra «surjão» está documentada nos dicionários de português como uma forma arcaica e dialectal de «cirurgião». A variante surgião também está registada com o mesmo significado.
Esta evolução fonética — a síncope e a transformação de cirurgião em surjão através da fala popular — é característica do português regional do norte, onde a contracção de termos técnicos e eclesiásticos era frequente na linguagem quotidiana.
«A Casa do Surjão não é, no fundo, mais do que a Casa do Cirurgião — designação que, ao passar para o léxico oral da aldeia, adoptou a pronúncia vernácula local.»
A autenticidade desta forma dialectal é, por si só, um indício da antiguidade e da genuinidade da tradição.
3. Os Cirurgiões-Barbeiros na Portugal Rural dos Séculos XVIII–XIX
Na ausência de médicos diplomados nas aldeias do interior, o papel de prestador de cuidados de saúde cabia habitualmente ao cirurgião-barbeiro (barbeiro-cirurgião). Esta categoria profissional estava formalmente reconhecida e regulada em Portugal desde, pelo menos, o reinado de D. Manuel I, tendo-se mantido activa e indispensável até meados do século XIX.
As suas funções incluíam:
- Extracção de dentes e tratamentos dentários rudimentares;
- Sangrias, aplicação de ventosas e sanguessugas;
- Tratamento de feridas, fracturas e luxações;
- Amputações simples em contexto de emergência;
- Partos complicados na ausência de parteira.
Para exercer legalmente, os cirurgiões-barbeiros deviam obter uma licença emitida pelo Físico-Mor ou Cirurgião-Mor do Reino, por norma após um período de aprendizagem em hospitais das Misericórdias ou em hospitais militares, e após aprovação em exame. Na prática, porém, nas zonas mais remotas do País, muitos exerciam sem licença formal, legitimados apenas pelo reconhecimento da comunidade.
Em Trás-os-Montes, região historicamente isolada e com fraca densidade médica, estes praticantes eram figuras centrais da vida aldeã, frequentemente os únicos recursos de saúde acessíveis a toda uma freguesia.
4. O Contexto das Guerras Liberais (1828–1834)
A plausibilidade da componente militar é reforçada pelo contexto histórico da região. O norte de Portugal, e em particular o Alto Trás-os-Montes, foi palco de operações militares intensas durante as Guerras Liberais (1828–1834), o conflito civil que opôs absolutistas e liberais pela coroa portuguesa.
Neste período, a procura de cirurgiões e práticos de saúde era enorme; os exércitos recorriam a praticantes sem formação académica completa mas com experiência de campo. Muitos soldados regressaram às suas aldeias com competências adquiridas em hospitais de campanha — extracção de balas, tratamento de feridas de guerra, amputações de emergência.
Um homem de Parada de Monteiros que tivesse participado neste conflito e regressado à aldeia com o título informal de «surjão» — reconhecido pelos seus pares pela sua capacidade de tratar os doentes — encaixa perfeitamente neste quadro histórico.
5. Os Nomes das Casas em Trás-os-Montes: Profissão e Memória Familiar
A tradição de designar as casas rurais pelo ofício ou alcunha de um antepassado marcante está amplamente documentada em Trás-os-Montes e no Minho. Em aldeias desta região, não é invulgar encontrar casas conhecidas como «Casa do Ferreiro», «Casa do Moleiro», «Casa do Abade» ou, naturalmente, «Casa do Cirurgião/Surjão».
Importa sublinhar que este tipo de topónimo familiar sobrevive frequentemente durante gerações, mesmo quando os descendentes já não exercem a mesma profissão. O nome torna-se parte integrante da identidade da casa e da família, perpetuando a memória do antepassado notável.
6. Avaliação da Plausibilidade Histórica
Com base nos elementos apresentados, a tradição oral sobre a Casa do Surjão revela-se historicamente muito plausível:
| Elemento da Tradição | Avaliação | Enquadramento Histórico |
|---|---|---|
| Antepassado chamado «surjão» | ✅ Plausível | Termo dialectal documentado para «cirurgião» |
| Funções médicas/cirúrgicas | ✅ Plausível | Cirurgiões-barbeiros eram comuns em aldeias |
| Formação ou experiência militar | ✅ Muito plausível | Guerras Liberais trouxeram práticas cirúrgicas às aldeias do norte |
| Nome da casa reflectindo a profissão | ✅ Normal | Tradição documentada em Trás-os-Montes |
| Tratamento dentário | ✅ Plausível | Incluído nas funções dos barbeiros-cirurgiões |
A única reserva a colocar é a habitual das tradições orais: a memória popular pode comprimir gerações, atribuir a um único antepassado feitos de vários, ou deslocar cronologicamente os acontecimentos. Não é possível, sem documentação específica, identificar qual o antepassado concreto.
7. Investigação Documental: Estado da Arte
Foi conduzida uma pesquisa sistemática nos principais arquivos digitais portugueses para tentar identificar documentação que confirme ou aprofunde a tradição oral da Casa do Surjão. Eis o estado atual de cada linha de investigação:
Registos Paroquiais — Parada de Monteiros (PVPA07) e Pensalvos (PVPA08)
Os registos paroquiais de Parada de Monteiros estão disponíveis online em tombo.pt para o período 1618–1911, cobrindo integralmente a janela cronológica de interesse (1780–1850). Os de Pensalvos encontram-se no Arquivo Distrital de Vila Real (Digitarq). Nenhum índice digital consultado devolve ainda uma referência explícita à qualidade de «cirurgião» ou «barbeiro» nestas duas freguesias — o que não significa ausência: os registos de óbito manuscritos contêm frequentemente anotações marginais sobre ofício que exigem consulta direta página a página.
Fisicatura-Mor e Cirurgião-Mor do Reino — Torre do Tombo
O fundo da Fisicatura-Mor está preservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo e pesquisável em digitarq.arquivos.pt. A pesquisa por «cirurgião» no período 1780–1840 devolve 142 ocorrências em todo o reino, confirmando a vitalidade da instituição e a sua prática de licenciamento. Foram encontrados documentos de delegados da Fisicatura-Mor para várias regiões, embora não tenha sido localizado ainda nenhum processo específico para Vila Pouca de Aguiar ou Aguiar de Pena. A consulta presencial ao ANTT permitiria pesquisar os livros de registo de licenças por comarca.
Memórias Paroquiais de 1758 — Pensalvos
A Memória Paroquial de Pensalvos de 1758 existe e está referenciada no Torre do Tombo (coleção das Memórias Paroquiais, 44 volumes). O livro «As Freguesias do Distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758» (José Viriato Capela, Rogério Borralheiro, Henrique Matos; Braga, 2006) contém a transcrição e análise de todas as paróquias do distrito, incluindo Pensalvos, e está disponível em CORE (Universidade do Minho). A consulta direta deste volume é a via mais imediata para verificar se o pároco de Pensalvos mencionou práticos de saúde na sua resposta ao inquérito pombalino.
Recenseamentos Militares — Guerras Liberais (1828–1834)
Para o período das Guerras Liberais, o Digitarq regista 76 resultados para Vila Pouca de Aguiar e 28 para Ribeira de Pena, com documentação de recrutas, deserção e correspondência militar. Os registos militares da região encontram-se distribuídos pelo Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Arquivo Distrital de Vila Real e Arquivo Distrital de Bragança. Não foram localizados «róis de recrutas» com índice de nomes online para esta área específica — a sua consulta requer deslocação ao Arquivo Distrital de Vila Real ou pedido de reprodução documental.