A Casa: Construção em 1748
A inscrição existente na padieira (verga de pedra sobre a porta principal) da Casa do Surjão indica o ano de 1748 como data de construção do imóvel. Esta inscrição lapidária constitui fonte primária directa, a evidência física mais segura para datar o edifício, e situa a construção da casa em pleno reinado de D. João V (1706–1750), período de relativa prosperidade e estabilidade em Portugal.
A construção de uma casa de pedra granítica com padieira inscrita era, em Trás-os-Montes no século XVIII, sinal de posição social elevada: apenas famílias com recursos suficientes podiam encomendar a extracção, transporte e lavra de pedra de granito, e a contratação de um canteiro capaz de inscrever a data. Esta evidência material corrobora a tradição oral que descreve os antepassados desta família como lavradores abastados.
«A padieira com a inscrição do ano de 1748 é o testemunho material mais antigo e inequívoco que chegou até nós sobre a história desta casa.»
A data de 1748 é também historicamente relevante: a casa sobreviveu ao Terramoto de 1755 (embora o epicentro estivesse longe do Norte de Portugal, os seus efeitos foram sentidos) e a dois séculos de guerras, fomes, epidemias e êxodo rural, um testemunho da solidez da construção transmontana em granito.
A Tradição Oral e o Nome da Casa
Segundo a memória local, a casa conhecida como «Casa do Surjão» em Parada de Monteiros terá recebido este nome em virtude de um antepassado da família que exercia funções de índole médica ou cirúrgica, possivelmente cirurgião, dentista ou simplesmente alguém com conhecimentos práticos de saúde que ajudava a comunidade. Acrescenta-se que este antepassado poderia ter adquirido esses conhecimentos durante o serviço militar.
Esta secção avalia a plausibilidade histórica desta tradição oral à luz da documentação e dos costumes da época.
«Surjão»: Etimologia e Dialectologia
O primeiro elemento a estabelecer é linguístico: a palavra «surjão» está documentada nos dicionários de português como uma forma arcaica e dialectal de «cirurgião». A variante surgião também está registada com o mesmo significado.
Esta evolução fonética, a síncope e a transformação de cirurgião em surjão através da fala popular, é característica do português regional do norte, onde a contracção de termos técnicos e eclesiásticos era frequente na linguagem quotidiana.
«A Casa do Surjão não é, no fundo, mais do que a Casa do Cirurgião, designação que, ao passar para o léxico oral da aldeia, adoptou a pronúncia vernácula local.»
A autenticidade desta forma dialectal é, por si só, um indício da antiguidade e da genuinidade da tradição.
Os Cirurgiões-Barbeiros no Portugal Rural dos Séculos XVIII–XIX
Na ausência de médicos diplomados nas aldeias do interior, o papel de prestador de cuidados de saúde cabia habitualmente ao cirurgião-barbeiro (barbeiro-cirurgião). Esta categoria profissional estava formalmente reconhecida e regulada em Portugal desde, pelo menos, o reinado de D. Manuel I, tendo-se mantido activa e indispensável até meados do século XIX.
As suas funções incluíam:
- Extracção de dentes e tratamentos dentários rudimentares;
- Sangrias, aplicação de ventosas e sanguessugas;
- Tratamento de feridas, fracturas e luxações;
- Amputações simples em contexto de emergência;
- Partos complicados na ausência de parteira.
Para exercer legalmente, os cirurgiões-barbeiros deviam obter uma licença, a chamada «carta de exame», emitida pela Fisicatura-mor (a autoridade sanitária do Reino). Esta carta autorizava o portador a «sangrar, escarificar, aplicar ventosas e sanguessugas» em todo o território. O processo de habilitação passava por um período de aprendizagem em hospitais das Misericórdias ou hospitais militares, seguido de exame. Na prática, porém, nas zonas mais remotas do País, muitos exerciam sem licença formal, legitimados apenas pelo reconhecimento da comunidade.
Do ponto de vista social, a profissão era ambígua. O trabalho com sangue e feridas equiparava os barbeiros-cirurgiões, aos olhos da sociedade, a outras profissões consideradas «mecânicas» ou «infames», como açougueiros, carrascos ou sepultadores, pelo contacto físico com o corpo e com o sofrimento. Essa estigmatização social coexistia, paradoxalmente, com a indispensabilidade da sua função: numa aldeia sem médico, o surjão era simplesmente insubstituível.
O lento fim desta categoria profissional chegou com a fundação da Real Escola de Cirurgia de Lisboa em 1825, que instituiu uma formação académica rigorosa para os cirurgiões modernos e foi progressivamente tornando obsoleto o ofício tradicional do barbeiro-cirurgião. Em meados do século XIX, a profissão como tal tinha praticamente desaparecido das zonas urbanas; nas aldeias mais remotas, como Parada de Monteiros, a transição foi mais lenta. Fontes: Wikipedia PT, Barbeiro-cirurgião; Ordem dos Médicos.
Em Trás-os-Montes, região historicamente isolada e com fraca densidade médica, estes praticantes eram figuras centrais da vida aldeã, frequentemente os únicos recursos de saúde acessíveis a toda uma freguesia.
O Contexto das Guerras Liberais (1828–1834)
A plausibilidade da componente militar é reforçada pelo contexto histórico da região. O norte de Portugal, e em particular o Alto Trás-os-Montes, foi palco de operações militares intensas durante as Guerras Liberais (1828–1834), o conflito civil que opôs absolutistas e liberais pela coroa portuguesa.
Neste período, a procura de cirurgiões e práticos de saúde era enorme; os exércitos recorriam a praticantes sem formação académica completa mas com experiência de campo. Muitos soldados regressaram às suas aldeias com competências adquiridas em hospitais de campanha, extracção de balas, tratamento de feridas de guerra, amputações de emergência.
Este contexto histórico é compatível com a tradição oral familiar, um homem que tivesse participado no conflito e regressado com competências adquiridas em hospitais de campanha poderia ter recebido informalmente o título de «surjão». Sublinhe-se, porém, que não foi identificado até à data nenhum registo documental que confirme esta hipótese para Parada de Monteiros: trata-se de plausibilidade histórica, não de facto documentado.
Os Nomes das Casas em Trás-os-Montes: Profissão e Memória Familiar
A tradição de designar as casas rurais pelo ofício ou alcunha de um antepassado marcante está amplamente documentada em Trás-os-Montes e no Minho. Em aldeias desta região, não é invulgar encontrar casas conhecidas como «Casa do Ferreiro», «Casa do Moleiro», «Casa do Abade» ou, naturalmente, «Casa do Cirurgião/Surjão».
Importa sublinhar que este tipo de topónimo familiar sobrevive frequentemente durante gerações, mesmo quando os descendentes já não exercem a mesma profissão. O nome torna-se parte integrante da identidade da casa e da família, perpetuando a memória do antepassado notável.
A Visita de El-Rei D. Carlos a Parada de Monteiros (1906)
Um episódio notável que confirma a importância da família Pereira na vida de Parada de Monteiros é a visita do Rei D. Carlos I à aldeia, noticiada na Revista Ocidente, n.º 994, de 1906.
Segundo a revista, durante a estadia régia na província de Trás-os-Montes, o rei tinha partido para as Pedras Salgadas, «em uso das famosas aguas medicinaes» —, foi-lhe oferecida em Parada de Monteiros uma caçada aos javalis, sendo-lhe depois servido um almoço em casa do opulento lavrador, sr. Pereira.
«Em Parada de Monteiros foi-lhe offerecida uma caçada aos javalis, sendo-lhe depois servido um almoço em casa do opulento lavrador, sr. Pereira.»
— Revista Ocidente, n.º 994, 1906
Este registo documental é de enorme relevância para a história da família: demonstra que o sr. Pereira, antepassado directo, era uma figura de destaque suficiente na região para receber o próprio rei em sua casa. A descrição de «opulento lavrador» indica que se tratava de um proprietário rural de posses significativas, o que é consistente com a tradição oral familiar e com a dimensão das propriedades rústicas documentadas.
No dia seguinte, o rei foi a Sabrosa e almoçou em Mateus, onde o recebeu o Conde de Vila Real.
📄 Consultar a Revista Ocidente n.º 994 (1906)